O Conto A Criança e o Riacho
CARTAS DO INCONSCIENTE - O SONHO COMO LINGUAGEM
Joana Naves
5/17/20251 min read
A Criança e o Riacho
Era uma vez uma mulher que, certa noite, ao atravessar os territórios silenciosos do sonho, encontrou uma criança pequena e esquecida. A menina tinha os olhos cansados e o coração apertado de tanto tempo passado em um lugar onde não era bem-vinda. Ali, os ventos eram frios e os olhares, duros como pedra.
A mulher, ao vê-la, sentiu um chamado antigo, algo que vinha de muito antes das palavras. Aproximou-se com delicadeza e tomou a criança em seus braços, envolvendo-a num abraço tão sereno que, por um breve instante, o mundo pareceu suspirar.
Decidiu então levá-la dali. Caminharam juntas por uma trilha de folhas secas que estalavam sob os pés. A natureza, generosa e silenciosa, abriu um pequeno claro onde um riacho corria manso, levando embora tudo aquilo que não precisava mais ficar.
Ali, a mulher deitou a criança no chão coberto de folhas e pequenos galhos. Havia ciscos, sim, e o lugar não era isento de riscos — o riacho, tão próximo, sussurrava canções de outros tempos, e a mulher temia que, ao dormir, a pequena pudesse rolar para suas águas.
Mas ela não a deixou só. Sentou-se ao seu lado, fez da própria presença um abrigo, e ficou ali, atenta e amorosa, até ver a criança relaxar, respirar leve e, por fim, adormecer em paz.
Naquele instante, a mulher compreendeu: nem sempre o abrigo perfeito existe. Mas o verdadeiro cuidado nasce quando permanecemos, mesmo no desconforto, velando aquilo que em nós precisa, enfim, descansar.
Dizem que, desde então, a mulher visita esse lugar nos sonhos e, a cada vez, a criança adormece mais tranquila, e o riacho canta canções de renascimento.
E assim, ambas vão se tornando inteiras.
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